Substituímos o Estagiário pela IA. E Agora?
Reflexões sobre o desaparecimento do aprendizado de contato na formação jurídica
Durante boa parte da história humana, o trabalho físico fortalecia o corpo. Nos tempos pré-industriais, ninguém precisava de academia: bastava trabalhar. Hoje, para quem atua em escritórios, os exercícios físicos passaram a integrar a rotina de quem deseja ficar “em forma”. O condicionamento físico virou decisão, não consequência.
Paul Graham, em um de seus ensaios, usa essa analogia para falar sobre a escrita. Ela também exige decisão. As ferramentas de IA facilitaram — e muito — a atividade de escrever, nivelando a qualidade dos textos, até mesmo daqueles que não suaram muito nas aulas de redação. Hoje, quem quiser aprimorar a escrita sem qualquer tipo de muleta digital também precisa decidir retornar à academia — agora, em sentido educacional.
É preciso encarar a tela em branco, escrever, reescrever, revisar, editar. E, claro, ler bons textos para se inspirar. O esforço continua sendo individual, mas agora é voluntário. E é justamente esse esforço que começa a separar os textos apenas eficientes dos verdadeiramente eficazes — e os bons advogados dos medianos.
A advocacia, aliás, não escapa dessa lógica. Sempre foi — e continua sendo — um esporte de contato. Atuamos lado a lado com colegas, clientes, juízes e árbitros. Não há atalho para o “jogo jogado”. O estudo do Direito, quando vivido de verdade, também é feito de suor, fricção e convivência. Aprende-se na prática, no contato direto com os mais experientes. O famoso “aprendizado de contato”.
E esse tipo de aprendizado, tão essencial quanto subestimado, está em risco.
Com a ascensão das ferramentas de inteligência artificial, há quem defenda que muitos dos trabalhos tradicionalmente atribuídos a estagiários e jovens advogados — como minutas iniciais, revisão de documentos e até pesquisas jurídicas — devam ser automatizados, ou seja, entregues a alguma ferramenta de IA. Do ponto de vista da eficiência, a proposta pode até soar tentadora. Mas, quando o foco recai exclusivamente sobre a produtividade, o que se perde no caminho é justamente aquilo que mais importa na formação de um bom advogado: a convivência com quem já trilhou o caminho.
O artigo A white-collar world without juniors?, publicado no Financial Times, trata exatamente desse dilema. Sarah O’Connor descreve o que chamou de “o desaparecimento silencioso da formação profissional pelo atrito”. O aprendizado que surge da troca cotidiana, do feedback em tempo real, do “vem cá ver como eu faria isso”. Aquele que ocorre quando um sócio revisa uma minuta e comenta: “esse parágrafo está bom, mas falta ritmo”; ou “aqui você argumentou como estudante, não como advogado”. É o aprendizado na forma de uma boa e velha canetada. Quem nunca levou uma? Tudo isso faz parte da curva de maturação — e é insubstituível.
A tecnologia, se mal utilizada, pode nos afastar desse processo formativo. Estagiários que dependem apenas de IA para escrever pareceres correm o risco de não desenvolver a musculatura jurídica. Só saberão repetir fórmulas, sem compreender a lógica por trás delas. Da mesma forma, escritórios que deixam de envolver os mais jovens nas discussões estratégicas, nas reuniões com clientes, nos rascunhos iniciais, deixam de formar futuros líderes. É como querer treinar atletas apenas com vídeos motivacionais.
Claro que não se trata de demonizar a tecnologia. A IA pode — e deve — ser usada como aliada. Pode acelerar o processo, oferecer ideias iniciais, ampliar repertórios. Mas jamais substituir o olhar atento, o comentário certeiro, o puxão de orelha bem dado ou o elogio na hora certa. Todos elementos que só existem no contato humano. E que fazem diferença, especialmente no início da jornada de um profissional do Direito.
Mais do que um desafio técnico, estamos diante de uma escolha institucional. Queremos formar profissionais completos ou operadores de prompt? Queremos treinar advogados ou apenas economizar horas “biláveis”?
Sempre haverá bons profissionais. Mas, como disse Paul Graham, eles serão aqueles que optarem pelo aprimoramento constante.
E o ponto crucial é que esse esforço — no Direito (assim como em outras profissões) — não depende apenas do aprendiz. Ele definitivamente precisa querer aprender, mas alguém precisa abrir a porta, explicar o raciocínio, dividir a estratégia. Alguém precisa estar disposto a ensinar.
Olhar para frente é importante. Mas, se você está no topo, a coisa mais transformadora que pode fazer é olhar para baixo — e estender a mão.
Tony Barbuto é advogado qualificado no Brasil e em Nova York. Escreve sobre comunicação jurídica eficaz, disputas complexas e o uso estratégico da inteligência artificial. Responsável pela área de Disputas na Advocacia Adriano Dib.


