Primeiro Vem a Compreensão. Depois Vem a Redação.
O risco de formar uma geração de advogados que conhece as respostas sem percorrer o caminho que leva até elas.

Comecei a estagiar em 1999.
O Google engatinhava. Era outro mundo. Nada de inteligência artificial. Nada de respostas instantâneas. Nada de pedir para uma máquina elaborar um memorando em segundos.
Havia livros.
Havia os comentários aos códigos, “artigo por artigo, inciso por inciso”.
Havia tratados.
Havia monografias.
E havia a pesquisa de jurisprudência.
Ou melhor, a tentativa de pesquisa de jurisprudência.
Quem se lembra do JUIS? Ele fazia o ChatGPT parecer uma nave espacial.
Na prática, muitas vezes acabávamos recorrendo aos velhos compêndios de jurisprudência da RT. Lembro-me das estantes repletas daqueles volumes pesados. E lembro-me até hoje daquele cheiro característico de papel envelhecido.
Era um processo lento.
Muito lento.
Às vezes, passávamos uma tarde inteira procurando um único precedente útil.
Mas havia uma consequência interessante.
No final daquela tarde, você não encontrava apenas um precedente.
Você encontrava vinte.
Lia decisões favoráveis e desfavoráveis.
Descobria distinções que não estava procurando.
Encontrava exceções que ninguém havia mencionado.
E, sem perceber, começava a construir um modelo mental do Direito.
Mas não eram apenas os livros que faziam isso.
Havia também os professores, advogados e sócios com quem aprendemos tanto.
Aqueles mestres que pegavam um conceito aparentemente árido e o transformavam em algo impossível de esquecer.
O conceito era importante.
Mas eram os exemplos, os casos concretos e a prática forense que faziam o conceito criar raízes.
E as valiosas dicas?
“Quase lá. Pesquise mais.”
“Corte este parágrafo.”
“Está faltando alguma coisa.”
“Preciso de um parágrafo killer.”
Era naquele momento que a teoria deixava de ser teoria.
Ela passava a fazer sentido.
E, uma vez que fazia sentido, dificilmente era esquecida.
Hoje penso bastante nisso quando observo a primeira geração de advogados formada na era da inteligência artificial.
Não me preocupa a produtividade deles.
Nesse aspecto, provavelmente serão melhores do que minha geração jamais foi.
O que me preocupa é outra coisa.
Será que eles terão a oportunidade de construir o mesmo modelo mental?
Porque a parte difícil da advocacia nunca foi escrever.
A parte difícil sempre foi entender.
E só escreve bem quem entende primeiro.
Talvez seja justamente aí que esteja a grande mudança trazida pela inteligência artificial.
Pela primeira vez, tornou-se possível produzir um texto sofisticado sem necessariamente passar pelo mesmo processo de compreensão que antes era necessário para produzi-lo.
Uma petição.
Um parecer.
Um memorando.
Uma pesquisa jurídica.
Tudo isso pode ser gerado em poucos minutos.
Mas compreensão não é um detalhe.
É o fundamento.
Durante décadas, aprendemos Direito lendo doutrina, comentários aos códigos, acórdãos e votos. Aprendemos com professores/mentores brilhantes. Aprendemos pesquisando. Aprendemos errando.
Aprendemos entendendo.
A escrita era apenas a consequência.
Por isso, não acredito que o principal risco da IA seja formar advogados menos produtivos.
O risco é formar advogados que confundam velocidade com compreensão.
Que conheçam as respostas sem conhecer as razões.
Que saibam citar precedentes sem compreender seus limites.
Que obtenham conclusões sem percorrer o caminho intelectual que lhes dá sustentação.
Um advogado que leu cem acórdãos possui um tipo de conhecimento diferente daquele que leu um excelente resumo daqueles mesmos cem acórdãos.
O primeiro encontrou ambiguidades.
Contradições.
Mudanças de entendimento.
Votos vencidos.
Fatos peculiares.
Nuances.
O segundo encontrou uma conclusão.
E há uma diferença enorme entre as duas coisas.
Talvez seja por isso que acredito, cada vez mais, que o ativo mais valioso da advocacia não é somente a capacidade de produzir textos.
A inteligência artificial já entrega Clareza e Concisão em níveis impressionantes.
O ativo mais valioso continua sendo o julgamento.
A Conexão que nasce da experiência, do contexto e da compreensão.
A capacidade de perceber quando um argumento aparentemente perfeito está errado.
A capacidade de distinguir um precedente realmente relevante de uma mera citação decorativa.
A capacidade de separar o joio do trigo.
A inteligência artificial é extraordinária para produzir respostas.
Mas, pelo menos por enquanto, ela não substitui aquilo que aprendi entre livros, tratados, comentários aos códigos, salas de aula, “canetadas” na minuta e velhos volumes de jurisprudência: o julgamento profissional que nasce da leitura, da experiência e do tempo.
Primeiro vem a compreensão.
Depois vem a redação.
Nessa ordem.

