IA, tempestade e o dever de saber nadar
Simon Sinek comparou a IA a barcos. Mas e se vier a tempestade? Navegar é preciso… mas só chega quem souber nadar.
Em recente entrevista ao podcast Diary of a CEO, o autor Simon Sinek comparou a IA a barcos:
“Todos teremos barcos, mas o que acontecerá em caso de tempestade se não soubermos nadar?”
Essa metáfora me fez refletir sobre um artigo que escrevi no último ano, onde defendo que, embora as ferramentas de IA já consigam organizar, sintetizar e até melhorar textos jurídicos, o papel do advogado vai muito além de simplesmente “usar” essa tecnologia: é preciso aplicá-la com discernimento (humano).
Mas afinal, qual é a tempestade?
Ela pode representar muitas coisas:
• A ausência da IA, quando o sistema falha, sai do ar ou é proibido.
• A possibilidade de sermos induzidos ao erro por resultados aparentemente convincentes, mas imprecisos ou “alucinados”.
• Ou, ainda, essa ansiedade crescente diante da enxurrada de novos modelos, atualizações, inovações… e o medo de ficarmos para trás ou sermos substituídos por robôs.
O barco é a IA, ferramenta importante — e, às vezes, essencial — para navegarmos neste novo mar de complexidade e informação.
Mas… e se ele faltar?
Se não soubermos nadar — se não dominarmos os fundamentos, princípios e fontes —, não chegaremos a lugar nenhum. Morreremos na praia.
Por isso, acredito que o futuro da advocacia exige um movimento paradoxal, porém essencial: quanto mais a tecnologia evolui, mais precisamos voltar ao básico, aos fundamentos:
• O estudo dos princípios jurídicos
• A busca pela clareza e precisão
• A prática da boa retórica e persuasão
“O que importa é a jornada, não o destino”, lembra Sinek. IA é destino. Manipular as Fontes do Direito é uma jornada de constante aprimoramento.
A IA pode até nos entregar uma minuta funcional, mas transformar essa primeira versão em um argumento Claro, Conciso e Convincente — os 3Cs — continua sendo um trabalho humano, que exige julgamento, sensibilidade e domínio dos fundamentos do Direito. E isso é uma jornada de uma vida inteira.
Sou suspeito: pratico natação desde pequeno (Vai, Pinheiros!) — talvez por isso essa metáfora tenha me tocado tanto. Saber nadar não é apenas uma habilidade útil (life skill); é uma forma de estar preparado, com confiança, para o inesperado.
Assim também deve ser a nossa relação com a IA: dominar o básico (“manipular as fontes”) para não temer a tempestade.
Parafraseando o poeta português: Navegar é preciso… escrever nem tanto.
Tony Barbuto é advogado qualificado no Brasil e em Nova York. Escreve sobre comunicação jurídica eficaz, disputas complexas e o uso estratégico da inteligência artificial. Responsável pela área de Disputas na Advocacia Adriano Dib.


