IA, os 3Cs e o filtro que continua sendo humano
A conversa sobre inteligência artificial amadureceu.

Hoje, poucas pessoas duvidam de sua utilidade. A discussão deixou de ser se a IA funciona e passou a ser quanto valor ela realmente gera.
Recentemente, li um artigo comentando uma pesquisa do MIT sobre desenvolvedores de software. O estudo mostrou que a IA aumentou significativamente a produção de código. Mas, à medida que esse trabalho avançava pelo processo de revisão e validação até se transformar em produto final, parte relevante desse ganho desaparecia.
O resultado final ainda era positivo.
Mas havia um filtro.
Tenho a impressão de que algo parecido acontece na advocacia.
Como os leitores desta newsletter sabem, costumo falar dos meus 3Cs da comunicação jurídica: Clareza, Concisão e Conexão.
A IA já é extraordinariamente competente nos dois primeiros.
Ela organiza ideias, melhora estruturas, elimina redundâncias e produz rascunhos claros em segundos.
Mas as disputas jurídicas raramente são vencidas ou perdidas por falta de clareza ou concisão.
O verdadeiro desafio continua sendo a Conexão.
Porque conexão exige julgamento.
Qual argumento merece destaque?
Qual precedente realmente importa?
Qual tese, embora correta, enfraquece a narrativa do caso?
Essas não são decisões de redação.
São decisões de seleção.
Talvez seja essa a principal mudança trazida pela IA.
Durante décadas, advogados conviviam com escassez de argumentos.
Hoje convivemos com abundância.
A IA consegue gerar cem argumentos em poucos segundos.
Um bom advogado identifica quais dez merecem atenção.
Um excelente advogado identifica quais três realmente importam.
E um advogado excepcional sabe qual deles deve abrir a petição.
Por isso, gosto de pensar que Clareza e Concisão são capacidades de geração.
Conexão é uma capacidade de seleção.
É o filtro que transforma produtividade em eficácia.
A IA aumenta enormemente nossa capacidade de produzir.
Mas o julgamento humano continua sendo responsável por decidir o que merece sobreviver.
E é justamente aí que a advocacia continua sendo profundamente humana.


Caro Tony, reflexão excelente. Parabéns!
Quando redijo minhas petições ou as monitoro pelo uso da IA, sinto que consigo fazer de forma adequada a tal seleção que o texto partilha (penso eu, rs). Todavia, paralelamente, sinto que vivo certa síndrome de "emburrecimento", como se a falta daquela rotina de escrever, por vezes massiva, me deixasse, inclusive, sem critérios para filtrar o texto feito com uso artifical. Tudo parece bom, tem hora!
Talvez seja a IA que aprendeu o jeito que gosto e executa com facilidade, talvez seja a minha nova limitação criteriosa. Enfim!
Um abraço.