
Tenho pensado bastante sobre uma pergunta: se a IA tornar abundante aquilo que hoje consideramos trabalho intelectual, onde estará o valor do trabalho humano?
Encontrei uma resposta interessante em um lugar inesperado: a matemática.
Em Mathematics in the Age of AI, Terence Tao parte de uma premissa provocadora: vamos assumir que a IA será capaz de fazer matemática de nível de pesquisa. O que acontece depois?
Tao prevê uma transição da escassez para a abundância de provas matemáticas. Se máquinas puderem produzir milhares delas, o problema deixa de ser simplesmente encontrar uma prova.
Passa a ser decidir quais merecem nossa atenção, verificar sua relevância, compreendê-las, explicá-las e incorporá-las ao conhecimento humano.
Difícil não enxergar o paralelo com a advocacia.
Estamos caminhando rapidamente para uma era de abundância de argumentos.
Pesquisa jurídica, levantamento de precedentes, identificação de teses, construção de argumentos e primeiras minutas estão ficando cada vez mais baratos e rápidos.
Isso não significa que o advogado se torne menos importante. Significa que muda aquilo que é escasso.
Quando qualquer advogado puder gerar vinte argumentos em poucos minutos, o diferencial não estará em produzir o 21º.
Estará em saber qual dos vinte importa.
Qual deve ser descartado. Qual merece abrir a petição. Qual parece tecnicamente correto, mas enfraquece a narrativa. Qual conversa com a prova. Qual antecipa a objeção do julgador. E, principalmente, qual é capaz de convencer outro ser humano.
Talvez a IA esteja transformando a advocacia de uma profissão marcada pela escassez de produção intelectual em uma profissão marcada pela escassez de julgamento.
E isso muda bastante o que significa ser um bom advogado.

