Como um advogado americano usa IA na prática — e o que isso diz sobre o futuro da profissão
Zack Shapiro publicou um relato detalhado sobre como usa inteligência artificial no dia a dia jurídico. Três pontos que vale conhecer.
Zack Shapiro é advogado nos EUA. Atua em transações de venture capital e formação de startups. Publicou um relato longo e concreto no X sobre como usa inteligência artificial no dia a dia da prática jurídica.
Vale a leitura. Mas destaco três pontos me marcaram.
Os produtos especializados são uma roupa bonita em cima de uma IA-raiz.
Harvey, Spellbook, CoCounsel — todos rodam sobre os mesmos modelos de base. O argumento de venda é a customização: templates do escritório, fluxos de trabalho, biblioteca de cláusulas. Zack desmonta isso com precisão: template não é vantagem competitiva. Todo escritório competente tem os mesmos templates.
O diferencial nunca esteve no documento de partida. Esteve no que o advogado faz com ele: onde enxerga o problema enterrado na cláusula 14(c), qual briga vale travar e qual vale ceder. Isso é julgamento. E julgamento não vive no template. Vive no profissional.
A IA não terceiriza o trabalho. Ela faz o primeiro rascunho.
Zack trata o Claude, da Anthropic, como trataria um júnior competente: produz a análise inicial, mapeia os riscos, sugere contra-proposta. O advogado revisa, decide, assina. A responsabilidade não muda de mãos.
Quem delega o raciocínio para a ferramenta não está usando IA — está se substituindo por ela.
O chat é só o começo.
A maioria dos advogados que usam IA está no modo conversa (função "chat": digita uma pergunta, recebe uma resposta. Útil. Mas é o nível básico, segundo o artigo.
O Claude tem um modo chamado Cowork — e é onde o jogo muda. Diferente do chat, o Cowork opera de forma (quase) autônoma: você aponta uma pasta do caso (salva no seu computdor), dá a instrução, e a ferramenta lê todos os documentos, entende o contexto, monta a linha do tempo, redige a minuta. Ela abre arquivos, edita contratos, produz o redline — sem você abrir o Word. Não é um assistente que responde perguntas. É um colaborador que trabalha o processo do começo ao fim.
Poucos advogados sabem que isso existe. Menos ainda experimentaram. Zack experimentou — e a diferença aparece nos resultados.
O julgamento do advogado é o ativo que a IA torna mais valioso.
Há uma tentação real em deixar a ferramenta trabalhar demais. Zack é direto sobre isso: quem usa IA fora da sua competência, ou confia no output/resposta sem interrogá-lo, performa pior do que quem não usa IA. Os advogados que submeteram citações inexistentes “alucinadas” por IA e foram sancionados não tiveram um problema de tecnologia. Tiveram um problema de julgamento.
É exatamente aí que o advogado experiente tem vantagem — e a maioria ainda não percebeu. Dez, vinte anos desenvolvendo instinto em uma área do Direito: saber o que a outra parte está sinalizando antes de dizer, qual concessão parece pequena mas cria precedente perigoso, quando a linha-dura vai funcionar e quando vai destruir o negócio. Esse repertório não está no modelo (qualque um deles). Está no advogado. E é ele que determina o que fazer com o que a ferramenta de IA entrega.
A experiência e o julgamento acumulados em anos de profissão são exatamente o ativo que a IA torna mais valioso (e eficiente).
IA é ferramenta. Nunca uma muleta.
IA não exerce advocacia. Você sim.


