Clareza. Concisão. Conexão. Muito Antes da IA
O que Lord Denning ainda pode ensinar sobre escrita jurídica — mesmo na era da IA
Lord Denning (1899–1999) foi um dos juízes mais influentes da história da Inglaterra — e talvez um dos maiores exemplos de clareza na escrita jurídica.
Seu livro The Discipline of Law é uma reflexão sobre a evolução do Direito inglês ao longo do século XX. Mas um dos capítulos mais interessantes para advogados, professores e profissionais que trabalham com comunicação é “Command of Language”.
Ali, Denning trata a linguagem não como ornamento intelectual, mas como ferramenta de trabalho.
Para ele, escrever bem não era apenas questão de estilo. Era questão de pensamento claro.
E talvez seja justamente por isso que suas ideias continuam tão atuais.
Vivemos em um mundo saturado de informação. Textos são produzidos em escala. Ferramentas de IA já conseguem gerar conteúdo com clareza e concisão em segundos.
Mas o texto verdadeiramente convincente — aquele que conecta ideias, fatos, contexto e audiência — continua exigindo discernimento humano.
Esse é o meu terceiro C: Conexão. É ela que dá sentido aos outros dois, calibrando a Clareza e a Concisão de acordo com os fatos, o contexto e o leitor.
Ao ler Denning, fica difícil não pensar nisso.
Algumas das principais lições de Lord Denning sobre escrita jurídica
1. As palavras são as ferramentas do advogado
“Words are the lawyer’s tools of trade.”
“As palavras são as ferramentas do ofício do advogado.”
Denning via linguagem como instrumento central da advocacia e da magistratura. Petições, contratos, pareceres, sustentações orais e sentenças dependem da capacidade de transformar pensamento em linguagem clara.
E ele faz uma observação ainda mais importante:
“Words are the vehicle of thought. … Obscurity in thought inexorably leads to obscurity in language.”
“As palavras são o veículo do pensamento. … A obscuridade no pensamento leva inexoravelmente à obscuridade na linguagem.”
Em outras palavras: textos confusos normalmente revelam pensamentos confusos.
2. Boa escrita exige prática deliberada
Denning rejeitava a ideia de talento espontâneo.
Para ele, escrever bem dependia de prática constante:
“As a pianist practises the piano, so the lawyer should practise the use of words.”
“Assim como um pianista pratica piano, o advogado deve praticar o uso das palavras.”
E ele descreve sua própria rotina de revisão:
“I crossed out sentence after sentence. I wrote them again and again.”
“Risquei (canetei) frase após frase. Escrevi-as repetidamente.”
Talvez uma das melhores lições do capítulo seja justamente essa: clareza raramente nasce na primeira versão.
3. Evite prolixidade
Denning também criticava alguns vícios clássicos da escrita e da oralidade jurídica:
“Don’t be dull. Don’t repeat yourself too often. Don’t be long-winded.”
“Não seja enfadonho. Não se repita demais. Não seja prolixo.”
É curioso perceber como esse conselho continua atual décadas depois.
Em muitos ambientes profissionais, ainda existe a falsa impressão de que complexidade é sinal de sofisticação.
Mas, na prática, clareza costuma ser muito mais difícil do que rebuscamento.
4. Seja direto, firme e convincente
Um trecho particularmente interessante:
“Make them positive and definite. Not neutral or vacillating.”
“Faça-as afirmativas e firmes. Não neutras ou vacilantes.”
Denning entendia que boa comunicação não depende apenas de clareza técnica.
Ela também exige convicção.
Isso não significa agressividade ou excesso retórico. Significa transmitir direção, segurança e coerência.
Clareza. Concisão. Conexão.
Ao longo do tempo, acabei resumindo minha visão sobre comunicação jurídica em três pilares:
Clareza;
Concisão;
Conexão.
A IA já ajuda bastante com os dois primeiros.
Mas a conexão — a capacidade de compreender contexto, audiência, timing, nuances humanas e persuasão — continua sendo profundamente humana. Só a prudência e o discernimento humanos ainda parecem capazes de gerar o tipo de conexão que convence.
Por quanto tempo ainda?


